sábado, 31 de janeiro de 2015

A ATRIZ, CINEASTA E CANTORA VANJA ORICO FOI HERDEIRA DOS MATHIAS VELHOS EM CANOAS

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A cantora Vanja Orico homenageando o Rio Grande do Sul com música de Paulo Ruschel, gaúcho de Passo Fundo e autor da conhecidíssima música "Os Homens de Preto", que foi interpretada pelo Grupo Os Gaudérios e a também gaúcha Elis Regina
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A cantora e atriz Vanja Orico - "A Musa do Ciclo Cangaço" -, foi descoberta pelo cineasta italiano Fellini, com quem filmou na Itália, onde começou sua careira, neste vídeo, que é parte do filme "O Cangaceiro", canta "Mulher Rendeira".
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Um slideshow sobre Vanja Orico, que interpreta um samba.
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Neste vídeo, com flashes de um filme gravado na Itália, Vanja interpreta "Mulher Rendeira", do filme "O Cangaceiro" e Meu Limão, Meu Limoeiro".
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Vanja Orico, já bastante idosa, cantando "Meu Limão, Meu Limoeiro", acompanhada de Mário Psais e Socorro Lira.

VANJA ORICO: HERDEIRA DAS FAZENDAS DA FAMÍLIA DOS MATHIAS VELHO, EM CANOAS.

A atriz, cineasta e cantora VANJA ORICO, nascida Evangelina Orico, nasceu no Rio de Janeiro, no dia 15 de novembro de 1931 e faleceu também no Rio de Janeiro no dia 28 de janeiro de 2015, esteve em Canoas por diversas vezes, pois hera herdeira dos muitos hectares de terra que pertenceram à família Mathias Velho, do seu avô Saturnino Mathias Velho e sua avó. Terras que iam da Rua Guilherme Schel, ladeada pela hoje Rua Mathias Velho (homenagem) até o Rio dos Sinos e outro campo batizado de "A Brigadeira", hoje um dos bairros de Canoas, que ficava na zona Norte de Canoas, sendo que a sua maioria já foi loteada, inclusive a área onde está localizada a Ulbra - Universidade Luterana do Brasil.
Filha do diplomata, escritor e acadêmico paranaense Osvaldo Orico, Vanja foi casada com André Rosenthal com quem teve o filho Adolfo Rosenthal. Nas múltiplas vezes em que esteve em Canoas tratando dos negócios herdados dos avós, Vanja Orico se apresentou, cantando, no palco do Anfiteatro La Salle, na Rua Muck, acompanhada pelo Show Musical Caravelle, dirigido pelo violonista Paulo Osni Finger, então considerado o "melhor conjunto musical dos três estados da Região Sul: Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul". 
Na ocasião, eu, Xico Júnior, comparecera ao show como cronista social e jornalista, quando apresentei, apenas cantando à capela, a minha primeira composição musical, um samba protesto, intitulado "Mundo Menino". Vanja gostou da letra e do estilo musical e, assim, solicitou-me que a enviasse em uma fita cassete, pois acreditava que precisava de uns retoques na melodia e um bom arranjo. Como eu não havia registrado a música no órgão competente, acabei por não enviar o samba protesto "Mundo Menino" e até hoje está sem ser gravada, apenas registrado, coma melodia e letra, à capela por este autor. Isso aconteceu lá pelo ano de 1973.

A ARTE DE DEFENDER O POVO

Estreando no cinema ao lado de Lattuada e Fellini, a atriz, cantora, diretora de cinema e ativista política, Vanja Orico, teve seu nome gravado nas mentes e corações de inúmeras pessoas no mundo inteiro. Sendo uma figura bem brasileira, mesmo quando fazia personagens em filmes italianos, alemães ou franceses, Vanja foi premiada em festivais como o de Cannes e Karlovivary. Cantando “Sodade Meu Bem Sodade”, de Zé do Norte, no premiado O Cangaceiro, de Lima Barreto, divulgou nossa música popular pelo mundo afora, sendo a primeira brasileira a enfrentar a censura e cantar no Leste europeu.


Vanja detêm ataque dos militares aos estudantes em 7 de novembro de 1968
Além da vida artística, Vanja Orico ficou conhecida como uma brasileira que lutou contra a ditadura militar e em 07 de novembro de 1968, durante o enterro do estudante Édson Luiz, morto pela repressão, apareceu em uma cena marcante que ficaria na memória de inúmeros brasileiros: de joelhos, lencinho branco na mão, se pôs defronte aos carros do exército aos gritos de “Não atirem, somos todos brasileiros”.

Morou em diversos países da Europa, por ser filha de um diplomata, o escritor e imortal Oswaldo Orico.

Entre os filmes mais importantes está Mulheres e Luzes, o seu primeiro trabalho, aos 16 anos, enquanto estudava em Roma, na Itália. Sob a direção de Federico Fellini e Alberto Lattuada, apareceu no papel de uma ciganinha e lançou a música Meu Limão Meu Limoeiro. Também compôs Coplas, canção inspirada em refrão de Garcia Lorca. Logo em seguida, já no Brasil, no papel de Maria Clódia, participou do premiadíssimo O Cangaceiro. Além de Sodade Meu Bem Sodade, Vanja canta Mulé Rendêra. Um Clássico do cinema nacional e duplamente premiado no festival internacional de Cannes, além de vários outros prêmios. Na época, foi assistido por um quarto da população brasileira.

Presa e espancada após deter massacre iminente
Em 1955, Vanja aparece na pele de uma índia Carajá, em Yalis, a Flor das Selvas, uma produção italiana, rodada em Roma e no Rio Araguaia, contando a trajetória de uma índia levada para a civilização. Esse filme a consagra como cantora e dançarina.
"Eu creio no nosso cinema. No momento temos muita gente boa fazendo filmes e até bem jovens".
No ano seguinte atuou como Conchita, no filme Conchita, Under Iugenieur, uma produção alemã com direção de Franz Eishore. No elenco estava o também brasileiro Grande Otelo, Robert Freitag e Cyl Farney. Conchita é uma mestiça, de um país da América Latina, que se apaixona por um engenheiro alemão e, como não é retribuída, por vingança, incendeia os poços de petróleo.
Falando cinco idiomas, ficava fácil para ela trabalhar em qualquer país. Entre 1956/57 fez Rosa dos Ventos, um filme em cinco episódios, cada qual representando um país: URSS, China, Brasil, Itália e França. O capítulo brasileiro é baseado em uma história de Jorge Amado. Sob a direção de Alex Vianny, Vanja viveu Ana e o filme foi premiado no festival Tcheco de Karlovivary.

Cartaz do filme Yalis, a Flor das Selvas
Atuou ao lado de Rui Guerra, Fábio Sabag e Eduardo Coutinho, em Os Mendigos, 1964, a primeira comédia do cinema novo. Ainda neste ano, interpretou Maria Bonita, no filme de Carlos Coimbra e Massaini, Lampião Rei do Cangaço.

Em 1993, dirigida por Nelson Pereira dos Santos, apareceu como uma parteira do conto de Guimarães Rosa A Terceira Margem do Rio. Vanja participou em mais de 15 filmes premiados fora do Brasil. O seu último filme foi Impérios, com direção de Joel Barcelos. As Filmagens terminaram recentemente e ainda falta editar. “São três horas de projeção, que conta uma história muito curiosa que se passa entre a China e o Brasil” apresenta a artista.

Além de atriz, Vanja Orico é argumentarista para cinema, e Ele o Boto, filme dirigido por Walter Lima Júnior, em 1986, é produção sua. A artista também teve o prazer de trabalhar, recentemente, sob a direção de seu filho único, o cineasta e produtor de televisão, Adolpho Rosenthal, no média-metragem Maria das Graças, que ainda não foi projetado.

PERSONALIDADE FORTE E DESEJO DE UM BRASIL MAIS JUSTO E SEM DOMINAÇÃO CULTURAL

Para Adolpho é complicado falar de sua mãe mantendo um distanciamento, para poder enxergar a pessoa independente de filho, mas é um esforço que faz, até porque considera Vanja uma pessoa especial, diferente da maioria, principalmente por sua forte personalidade e seu jeito diferente de ser.

Ele atribui a esse jeito diferente a causa de se tornar a Vanja com destaque no campo artístico não só nacional, mas com projeção internacional, e também como participante ativa de movimentos políticos, na luta pelos direitos humanos, no momento da ditadura. Segundo Adolpho, a maior característica de Vanja, é ser uma pessoa idealista, sempre projetando um futuro melhor. “Ela sempre teve um ideal político muito coerente e está sempre engajada em algum projeto que busca uma melhoria de vida, um Brasil melhor e mais justo. No sentido artístico, planeja realizar um novo Cd e filme, sendo que sua grande luta sempre foi pela valorização da cultura nacional, através de um trabalho sério em cima do popular e folclórico”, fala com orgulho.
"O público tem que ter consciência de que existe cinema brasileiro e se identificar com o que é nosso".
Atualmente Vanja está engajada na questão da preservação da língua portuguesa, para tentar evitar a entrada de termos ingleses no Brasil, e também em outros movimentos, sempre em prol da preservação da cultura e identidade nacional. Sempre com uma proposta nova de cultura popular, durante três anos a artista desenvolveu o projeto Rio Boa Praça, espetáculos de música que aconteciam nas praças do Rio. “Fazíamos apresentações quinzenais, com o apoio da Petrobrás, em toda parte da cidade. Entre outros, participaram o João do Valle e Zé Kéti. Estava dando certo, mas, com uma mudança de governo, foi cortado”, lamenta Vanja.
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Cena do filme O Cangaceiro

Foto que serviu de teste para o filme

GANHANDO ESPAÇOS PARA O BRASIL NO CENÁRIO INTERNACIONAL E PERDENDO ESPAÇO DENTRO DE SEU PRÓPRIO PAÍS

A atriz teve uma grande projeção no cinema, principalmente, nos anos cinqüenta, mas, a partir dos anos oitenta, começou a perder espaços na mídia. “Isso aconteceu porque, muitas vezes, os valores que ela prega, foram abandonados em detrimento de outros. A mídia tomou conta do mundo artístico, que está muito voltado para o mercado e a questão do consumo. Com isso, ela teve uma certa interrupção de sua busca, ou uma dificuldade de mostrar o seu trabalho. Mas não se entregou e está com novos projetos”, explica o filho.

O cineasta tem uma visão bem otimista quanto ao futuro. Para ele a cultura nacional vai acabar se impondo de alguma maneira. “Apesar de vivermos em um Brasil culturalmente dominado, existem focos de resistência e minha mãe faz parte de um deles. Acredito que a cultura nacional é algo muito forte e que por mais dominada que esteja, o povoa inda consegue identificar o que é seu. O Brasil tem um potencial cultural fantástico, faltando somente os canais para que isso se abra e, cedo ou tarde, isso vai acontecer”, acredita. “Até a nova geração já está começando a se preocupar com isso. Eles estão percebendo que a cultura de massa é muito igual. É inconsciente, não adianta querer destruir a cultura nacional, porque é algo natural e, uma hora ou outra, mesmo que dominem e abafem, aparecerá, como se fossem focos que vão se abrindo”, argumenta Adolpho.
Se a mídia fosse mais inteligente, diz Adolpho, perceberia que se investisse nos valores nacionais poderia encontrar uma forma de vender, porque atingiria mais profundamente a população brasileira e ao mesmo tempo, abriria mais canais de expressão.

RESISTIR HOJE E SEMPRE

Como mãe, Adolpho conta que Vanja mantém a mesma personalidade, sempre tentando passar para o filho a sua inquietação com a desnacionalização cultural e geral, e tentando envolvê-lo para que dê continuidade a sua luta. “Quando crescemos, ganhamos uma autonomia e, muitas vezes, tomamos posições diferentes de nossos pais, mas, por mais que eu queira ter tomado um caminho diferente do dela, de alguma forma, tenho continuado o seu trabalho, na luta para valorização da cultura nacional”, assume com carinho, acrescentando ainda que, diferente de sua mãe, é uma pessoa mais de idéias do que ações e acredita que a solução para os problemas está no campo das idéias, da cultura.
"Minha mãe faz parte de um foco de resistência que luta contra uma dominação cultural que o país vem sofrendo". (Adolpho Rosenthal)
Na televisão, Adolpho já foi responsável pelo trabalho de investigação e desenvolvimento, principalmente na parte das aberturas, nas novelas da antiga Tv Manchete, como Pantanal, Ana Raio e Zé Trovão, Amazônia e Kananga do Japão, além da minissérie O Farol, baseada em um conto do seu avô Oswaldo Orico, que considera o primeiro artista da família e responsável pelo surgimento dos outros.

Atualmente Adolpho trabalha em sua própria produtora, é diretor do Globo Ciência, da Tv Globo e desenvolve outros projetos ligados a educação, como o programa Escola do Rádio na Tv, uma série de episódios voltados para a alfabetização. O objetivo é educar e dar ferramentas e conscientização para pessoas que estão aprendendo a ler e escrever. Uma produção independente, que no momento está sendo exibida na Paraíba, pela Tv Globo, mas deve ser vincular em todo o país.

É uma espécie de novelinha, em que atores vivem possíveis situações do dia-a-dia daqueles que estão aprendendo a ler e escrever e, ao mesmo tempo em que alfabetiza, ensina como tirar uma carteira, procurar pelos seus direitos, abaixo assinado, lutar contra determinada questão, fazer uma reclamação e outros.

Estou tentando desenvolver projetos para televisão e cinema e também perseguindo algumas linhas ligadas à identidade nacional, mas voltada para a educação. Meu foco é o conhecimento através da educação e cultura. Como a televisão se tornou algo que, cada vez mais, está repleta de entretenimento e apelação, com programação ruim e desagradável, estou tentando aliar um programa de entretenimento com a informação e o conhecimento. Esse é o meu desafio na TV”, confidencia.

No cinema, Adolpho está escrevendo um longa, já em fase final, que tem o título provisório de Enquanto Eu Estiver Vivo. “É um filme de ação que mostra a violência carioca e a falta de esperança e de valores que estamos vivendo no momento. No entanto, em determinada parte do filme, os personagens chegam a uma situação limite e aparece uma proposta de mudança e um novo caminho, mas isso não posso contar”, brinca com alegria.

VANJA ORICO, O FILME

Um filme para falar de Vanja Orico. Trata-se do projeto que o historiador Luis Carlos Prestes Filho, está realizando sobre Vanja. É um documentário de cinqüenta minutos. “Não pretendo fazer um trabalho que esgote o tema Vanja Orico, até porque ela é uma personalidade desse nosso Brasil, do meio artístico e a vejo como tema inesgotável. Tem várias facetas em sua vida e escolhi um caminho, uma maneira de o- lhar Vanja Orico”, comenta.

Luis Carlos se formou diretor de filmes documentários para cinema e televisão, na antiga União Soviética, por isso, faz questão de deixar claro que é um historiador e não documentarista.
"Meu filme é sobre a Vanja artista, cidadã e patriota". (Luís Carlos Prestes Filho).
Para realizar o documentário Luis Carlos fez uma grande entrevista com Vanja, e também com deputados, jornalistas e artistas, que falaram sobre ela, e uma pesquisa profunda dos mais diferentes aspectos da artista. “O que pretendo com esse filme é mostrar a trajetória de Vanja, a única artista brasileira que interpretou uma personagem em um filme de Federico Fellini. Ela reproduziu exatamente o que nós conhecemos: para fazer sucesso no Brasil, a pessoa tem que fazer sucesso no exterior” analisa.

“Ao chegar no Brasil participou do filme O Cangaceiro, um dos filmes brasileiros mais exibidos no mundo. Cantando a música Sodade, Meu Bem, Sodade, fez com que esta ocupasse as paradas de sucesso, na mídia nacional e internacional, durante um longo período. Com esses dois trabalhos ela marcou a história do cinema brasileiro e mundial”, conclui.

Ele deixa claro que o filme não é somente sobre esses dois papéis de Vanja, mas todos os outros. “Quero mostrar a pessoa Vanja Orico, a artista e a patriota, que participou intensamente das lutas da juventude na resistência à ditadura militar no Brasil. O grito que deu, de joelhos na frente dos carros blindados do exército brasileiro, que estavam prontos para massacrar os estudantes, ecoou dentro das instituições políticas, como o Congresso Nacional e Assembléia Legislativa do estado do Rio de Janeiro. Na verdade, morreram dois estudantes, mas o seu gesto paralisou o massacre”, lembra.

Depois desta ocasião, Prestes conta que Vanja começou a ser bloqueada e perder espaço na mídia e sua imagem deixou de ser associada ao cinema e música e passou a ser a de uma atriz que não se conformava com a ditadura, a prisão, tortura e principalmente a falta de respeito para com a democracia. O filme, segundo Prestes, fala disso tudo.

“Para mim é uma honra poder estar convivendo com ela. Somos amigos há alguns anos e desde que voltei da União Soviética, em 1983, sempre nos visitamos e trocamos idéias. Atualmente, por estarmos no momento da realização das filmagens, estamos tendo uma convivência mais intensa”, conta.

Além do filme, a própria Vanja Orico está reunindo material para escrever um livro sobre sua vida, com título provisório de Ao Arrepio do Tempo.

*** Matéria extraída do site: http://www.anovademocracia.com.br/no-3/1354-vanja-orico-a-arte-de-defender-o-povo

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